Nerdices Filosóficas – 300 de Esparta e a filosofia política

Nerdices Filosóficas

Revisão: Juan Villegas
Vitrine: Valério Gamer

O filme “300” é uma adaptação da graphic novel “Os 300 de Esparta”, escrita por Frank Miller e desenhada por Lynn Varley. Por mais que a obra de Frank Miller não seja exatamente histórica, ela consegue mostrar a maneira como os gregos compreendiam sua relação com a cidade, o que pode ser extrapolado para a antiguidade como um todo.

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Na figura acima, vemos a cena em que Lêonidas chuta o representante dos persas, jogando-o no abismo, gritando: Isso é Esparta! (This is Sparta!). Veja que neste momento Leônidas não exalta a si mesmo enquanto Rei, mas coloca-se como a manifestação da própria vontade espartana. Neste momento ele não é a pessoa Leônidas, também não o rei Leônidas, mas a manifestação da própria Esparta. Ao ver o filme, ou ler a HQ, perceba os olhares à Leônidas antes do chute.

Somos modernos, marcados pelo conceito de subjetividade, onde nos vemos como indivíduos que vivem em uma cidade, sendo a cidade um local em que simplesmente estamos. Não conseguimos pensar em nós mesmos como parte da cidade, ou mesmo do país em que vivemos, mas nos enxergamos como indivíduos imersos em nossa própria subjetividade, que vivem em algum local.

Os gregos, como os antigos em geral, percebiam-se como partes da cidade, da polis. É um momento onde o ser da pessoa, aquilo que ela realmente é, está plenamente ligada à sua cidade, vista não apenas como um lugar em que se está, mas como parte de si mesmo, já que é na cidade onde a pessoa desenvolve e exerce suas virtudes (do gr. areté). Sem a cidade eu nada sou, pois é na cidade que efetivamente sou.

Aristóteles dizia que o homem é um animal racional (zôon logikón) e um animal político (zôon politikòn). Ele quis dizer que o homem é um animal que tem na razão sua essência, mas como animal político, sua essência é também o convívio com outros cidadãos da polis, da cidade. A cidade é vista como essencial ao humano e, portanto, a convivência social é que permite o humano realmente ser humano. Não há um sacrifício de nossa individualidade, ou subjetividade, para viver em sociedade. Embora apenas enquanto cidadão eu possa realmente ser humano, já que a sociedade me permite desenvolver a excelência de minhas virtudes (areté).O grego considera que só há virtude quando ela se realiza em atos, ou seja, só há virtude, de maneira concreta, se a pessoa exercê-la, daí ser a cidade intrínseca ao seu ser, pois é na cidade que a exerço.

Esta relação entre o indivíduo e a cidade perpassa toda cultura grega, desde a Ilíada e a Odisseia; na Apologia de Sócrates, onde a relação entre Sócrates e a cidade é um dos motivos que o leva a tomar cicuta; nas obras de Platão; Aristóteles; nas comédias e tragédias; e em toda produção cultural grega.
Este panorama começará a mudar no Helenismo, produção cultural iniciada durante o império de Alexandre Magno, que trará a ideia de que a polis, a cidade, é o próprio cosmos, o todo. Como as cidades deixam de ser independentes, a cidadania da pessoa perpassa todo o império e sendo um império heterogêneo culturalmente, o indivíduo deixa de sentir-se parte de uma polis, levando a pessoa a deixar de buscar na cidade o seu ser, buscando agora em sua alma, em sua interioridade. Isso muda completamente os rumos do pensamento. Este processo tem continuidade no Império Romano e tem no Cristianismo oficializado o seu acabamento, que desencadeará na modernidade baseada na subjetividade que vivenciamos.

Voltando a filme, ou graphic novel, “Os 300 de Esparta”, podemos ver ao longo da obra essa relação da pessoa a sua polis, a qual não vivenciamos mais. Tente revê-la não prestando atenção somente na ação e na narrativa, mas em como ali uma pessoa é quando torna-se o canal para a própria vontade de Esparta.

Necessitamos compreender esse tipo de relação intrínseca entre a pessoa e a cidade para compreender as questões pertinentes à Israel, por exemplo. As disputas por territórios no Oriente Médio, além de interesses econômicos, é marcada por esta compreensão de si mesmo como parte da cidade. No caso de Israel, já que os judeus chamaram a si mesmos de povo de Israel, daí passados séculos de sua diáspora, ainda almejarem retornar à Israel. O mesmo pode ser compreendido por outros conflitos dessa região, e de outras partes do mundo. Apreender a possibilidade dessa relação é uma porta para o diálogo, tão necessário às disputas políticas que ainda existem, e ao convívio real com os diferentes de nós.

Fontes para aprofundamento

Apologia de Sócrates, Platão
As origens do pensamento grego, Jean-Pierre Vernant
Ética a Nicômaco, Aristóteles
Os 300 de Esparta, Frank Miller e Lynn Varley

Publicado originalmente em: http://randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-300-de-esparta-e-a-filosofia-politica/

© 2013 Tiago de Lima Castro

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