Os riscos à ciência brasileira

Ciencia-e-SociedadePor mais que desde o início dos cortes nos orçamentos públicos, era claro que levariam a situação atual nas universidades e na pesquisa brasileira como um todo, devido aos efeitos sobre as instituições de financiamento. Esse problema traz a seguinte questão: sem engajamento social não há resistência possível, situação que é similar a que vêm ocorrendo com as artes em nosso país.

O engajamento, nesse caso, não precisa ser dos cientistas, mas da população em geral em relação à ciência. Mesmo com a população alfabetizada e o aumento de acesso à educação, os problemas desta última levam a nossa realidade em que a maioria da população brasileira não compreende o que é a ciência, seu método e seus efeitos sobre a sociedade. Mesmo com o exemplo que ocorreu com o vírus Zika, ainda não é claro para toda a população a função da produção científica em nossa sociedade.

Tendo o meio acadêmico como um todo, é surpreendente a contínua picuinha entre: filosofia; matemática; ciências humanas, como sociologia, história, geografia, direito, economia, entre outros; ciências duras e suas derivações práticas, como física, química, biologia, engenharias diversas, entre outros; as ciências médicas, como medicina e psicologia, as quais apresentam uma metodologia específica por unir aspectos teóricos a prática terapêutica, diferente da divisão entre física e engenharia, por exemplo; e os cursos de artes. Debate e discussões é saudável e importante, porém há situações absurdas: cientistas dizendo que filosofia é inútil, seguido as besteiras ditas pelo Stephen Hawking sobre esse tema especificamente; pessoas da ciências humanas desfazendo-se das ciências duras, e vice-versa; pessoas das áreas médicas considerando todo o resto da humanidade como seres inferiores a seu curso fantástico; entre outras brigas diversas. As picuinhas, diferentes de debates e discussões sérias, só fazem a academia parecer patética perante a população em geral.

Além dos problemas internos, a divulgação científica, tanto de seus métodos como dos resultados das pesquisas recentes, é deixada um pouco de lado pela própria academia. Cursos de extensão nem sempre são bem vistos pelas universidades, a tendência de falta de diálogo da universidade com seu entorno, linguagem complexa e voltada somente a pessoas do meio acadêmico, entre outros.

Historicamente, universidades como USP, em São Paulo, ou UFMG, em Belo Horizonte, entre outras; foram mudadas ou fundadas em locais afastados para que pudessem facilmente ser cercados e tomados por militares, e para afastar os estudantes das ciências humanas da população em geral. O afastamento geográfico gerou uma dificuldade de comunicação entre a sociedade e os acadêmicos.

O momento é certeiro para refletirmos o quão necessário é maior engajamento da academia, seja docentes ou discentes, em divulgação científica. Revistas científicas abertas e cursos ou eventos acadêmicos sendo disponibilizados no Youtube são ótimas ações — a TV UNIVESP tem feito um ótimo serviço em relação a isso. Contudo, precisamos pensar em outros meios de disponibilizar o acesso as nossas pesquisas, tanto na forma de nossa escrita, criação de blogs, podcasts e videocasts, valorizar cursos de extensão, entre outros.

Mesmo em congressos científicos, é de se pensar se as apresentações pudessem ser feitas de maneira a quem tenha interesse na área, mesmo não sendo acadêmica, possa acompanhá-la. Cheguei a participar de um Colóquio sobre Pascal na USP, por exemplo, em que pessoas interessadas no tema, sem serem acadêmicos, foram ao evento e contribuíram com ótimas questões. Há áreas em que isso é mais simples de se fazer do que outras, contudo, é algo importante a pensarmos.

Não adianta esperarmos o governo resolver salvar a educação brasileira para isso elevar o interesse popular à ciência, mas precisamos pensar em como contribuir, em nossas áreas especificamente, para dialogar mais com a sociedade em geral. Se quisermos maior respeito e futuro a pesquisa científica nacional, precisamos divulgar essas pesquisas para além da academia, pois somente com esse engajamento popular teremos alguma segurança na sobrevivência do meio. Além do que, sendo o imposto da população brasileira que sustenta essas pesquisas, nada mais justo que retornar essa pesquisa à população.

Escrito: 31/08/2017
© Tiago de Lima Castro

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