Cenário Idílico III

Cenário Idílico III

OrfeuAfrescoÓ Orfeu, possa eu experienciar o afeto musical
Ó Musas, facultem-me extasiar em puro delírio
Mimetizar o delírio deste afeto através do lógos
De Apolo à Dionísio, nos territórios de Morfeus

Desencapo o instrumento enquanto ajusto suas cordas
Buscando proporções entre sons, o cosmos em cordas
Psique e corpo vão coadunando nos gestos do dedilhar
As Musas dominam-me, o êxtase toma tudo o que sou
Apolo ordena e encaminha à justa medida esses gestos
Dionísio impulsiona jorro em êxtase de afetos e sons
Não há corpo, não há Psique, não eu, não há sujeito
Tudo transmuta em puro sentimento, música em Musas
O fluxo do cosmos perpassa-me em busca do divino
Inalcançável, porém, quase confundo-me com o Daemon
Minhas memórias são mais minhas, somente fluxo são
Não há angústia, mas não há alegria, todos afetos sou
Do alfa ao ômega repasso, perco-me completamente
Ó Musas, ó Apolo, ó Dionísio, somos unos e múltiplos

Ai de mim, saio novamente da porta aberta por Morfeus
Não acordo, mas as Musas se afastam e restrinjo ao eu
O mundo de Morfeus nesse estado acesso e então sou
Não sei quando só eu tocarei, ou como Orfeu extasiarei
A completude finaliza, volto a minha condição solipsista
Orfeu preso no Hades ficou, podendo estar com Eurídice
Éros os dois uniu, num misto de eudaimonia e maldição
O delírio das Musas competia com o delírio em Eurídice
Em ambos Orfeu atingia a completude do éros musical
Ao ponto de somente com as Musas poder com Eurídice
Permanecer, sua ascendência apolínea com a impulsão
Dionisíaco, talvez sendo este o destino dos músicos
A mim, sobra-me o solipsismo e a eterna ausência
Da presença das Musas, das tensões gigantes no eu
Do bélico conflito do apolíneo e do dionisíaco em mim

Ó Musas, por Apolo e Dionísio, me respondam então:
Por que somente em delírio completamente eu sou?
Talvez não exista este eu, então uma casca delirante
Sem a presença do delírio, nada sou e nada expresso
Será esse um dos motivos de Orfeu buscou Eurídice?
Ó Psique, o que sois afinal? O que buscas e o que és?
Será somente as Musas a aproximar Éros de Psique?
Sem o afeto musical não sou eu, não há eu, só casca
Ai de mim, na tragédia una da perene falta do delírio
Manifesta na díade da eudaimonia com a melancolia
Na tríade tangida em ato por Musas, Apolo e Dionísio
Na Tetraktys do êxtase do puro afeto musical no qual
O eu distendendo-se no absoluto da própria finitude
No qual sem música não há mais impulsos moventes
Do dionisíaco e do apolíneo na ausência da música

Escrita em: 26/06/2016
© 2016 Tiago De Lima Castro

Anúncios

2 comentários sobre “Cenário Idílico III

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s