Recital pelo cinquentenário do violonista Fabio Zanon

fabio-zanonFabio Zanon é um dos mais importantes nomes do violão erudito na atualidade, tanto em nosso país como internacionalmente. Já se apresentou nas grandes salas de concerto do Brasil e de outros países, ganhou grandes concursos como o 30º Francisco Tárrega, o 14º Concurso da Guitar Foundation of America (GFA),recebeu o prêmio Moinho Santista, fez estreias do repertório violonístico, fez música de câmara, excelentes gravações, ajuda na difusão do conhecimento sobre violão através do Fórum do Violão Erudito, utilizou sua comunicabilidade em duas séries de programas sobre história e repertório do violão na Rádio Cultura FM, participa da coordenação do Festival de Campos de Jordão, participou do projeto Movimento Violão e é associado da Royal Academy of Music de Londres atuando como professor visitante. Esse parágrafo provavelmente não faz jus as suas ações como música e difusor cultural em torno do violão.

Natural de Jundiaí, começou a estudar sob orientação de seu pai e posteriormente Antonio Guedes, porém, diferentemente de outros violonistas, a música de concerto sempre fez parte de sua vida musical desde o início. Posteriormente, graduou-se em música na USP, em 1997, estudando com Edelton Gloeden e Henrique Pinto, em 1990 fez mestrado sob a orientação de Michel Lewin na Royal Academy of Music em Londres e participou de máster-classes com Julian Bream.

Com todo esse histórico, nada mais justo que um recital realizado no dia 09 de abril de 2016, organizado pelo também violonista Gilson Antunes, no Centro Britânico Brasileiro (CBB) em São Paulo, através do Núcleo de Música Musicalis, com a coordenação de Estela Gontow Goussinsky. No mesmo evento ocorreu o lançamento de seu mais novo disco The Romantic Guitar pelo selo GuitarCoop.

O programa fora dividido em duas partes, escolha acertadíssima devido ao repertório envolvido. A acústica da sala é primorosa para o violão, tornando desnecessário qualquer amplificação, principalmente após o ar condicionado ter sido desligado, a partir da segunda peça. É de se destacar a possibilidade de apreciar o Fabio Zanon utilizando um raro violão do luthier francês Robert Bouchet (1898-1986) construída em 1964.

Todo intérprete necessita realizar escolhas interpretativas em meio a tensão entre sua própria personalidade musical com as necessidades específicas de cada peça. Zanon equilibra brilhantemente estes aspectos, de maneira que as escolhas tímbricas, dinâmicas, agógicas, articulações e todo o primoroso trabalho de fraseado permitem experienciar as qualidades específicas de cada peça temperadas com sua vibrante personalidade musical. Além disso, sua simpatia, erudição e comunicabilidade trouxeram leveza ao recital ao dialogar sobre cada peça, permitindo-se mesmo brincar um pouco com o público, porém, objetivando uma imersão do público dentro daquele repertório. Esse clima intimista permitiu tanto um mergulho no repertório apresentado simultaneamente a uma sensação de compartilha, da comemoração de seu cinquentenário. Boa parte do repertório foi romântico e, de certa forma, a condução do evento possibilitou vivenciar um pouco do clima musical dos sarais musicais do século XIX.

A primeira parte teve a execução das seguintes peças de Enrique Granados: Danza Española nº 5 (Andaluza), Danza Española nº4 (Villanesca) e a Tonadilla: La Maja de Goya. Peças originais para piano, sua interpretação acentuou os aspectos violonísticos das obras, com uma belíssima clareza entre as diferentes vozes de cada peça. Os contrastes tímbricos, característica intrínseca a mini-orquestra que é o violão, tem um uso refinado nas mãos do Fabio Zanon, trazendo cores vibrantes a sua interpretação, simultaneamente a um cuidado com a forma musical da peça. Logo em seguida, a primeira parte finaliza com Variações sobre a Folia de Espanha e Fuga de Manuel Ponce. Esta é uma obra densa, a mais longa do recital, em que se pode apreciar um maravilhoso turbilhão em que técnica, timbres e articulações são usadas em prol da música, possibilitando que intérprete e público foram levados a êxtase musical, pois cada variação fora interpretada de maneira única e vibrante, porém, todas ligadas por um eixo interpretativo claro. Neste momento, inicia-se o intervalo após uma interpretação tão impactante da obra de Ponce, a qual é uma dificílima tarefa, pois todas as obras apresentadas até aqui já foram feitas por grandes nomes da história do violão, como Segóvia, Bream e Williams, porém, tal desafio foi concluído com êxito pelo intérprete.

Após um breve intervalo, necessário, a segunda parte começa com a transcrição de Julian Bream da Kindersonate (Sonata infantil) Op. 11 nº1 de Robert Schumann, com os movimentos Allegro, Tema com variações, Puppenwiegenlied (Cantiga de ninar) e Rondoletto. A peça, originalmente escrita para a filha de oito anos de Schumann, ganhou uma nova estatura no violão, somada a vívida e delicada interpretação, onde antes Zanon comenta que a música descreve aspectos da infância, e sua interpretação foi muito feliz ao destacar os diferentes momentos vibrantes, como as súbitas surpresas do comportamento infantil, ao mesmo, sintetizando o plano formal da obra com a individualidade de cada momento, uma experiência magistral para o público. Seguiu-se com uma verdadeira pedreira para o intérprete: Première Grande Polonaise de Jan Nepomucen Bobrowicz, violonista da primeira metade do século XIX, contemporâneo de Chopin, onde o intérprete mostrou apuro técnico com uma vibrante interpretação. Como a peça foi gravado no CD lançado, apostaria uma maior presença desta em receitais, afinal, têm-se uma peça formidável com uma interpretação ímpar.

O recital finalizou com a execução de dois estudos compostos pelo compositor brasileiro Francisco Mignone: os estudos nº 4 e 9. Obras muito bem executadas com ótimo equilíbrio entre os ostinatos rítmicos da obra com seus demais aspectos destas peças complicadas tecnicamente. Naturalmente, o recital gerou aplausos, levando o intérprete a voltar ao palco e brindar o público com a Danza Paraguaya de Barrios, maravilhosamente executada.

O carisma, apuro técnico, inventividade interpretativa, criativo uso de timbres, características passionais, somada a uma compreensão formal, ou seja, racional, propiciaram um recital extremamente instigante e um mergulho no repertório. Uma linda comemoração de seu cinquentenário, o qual desejamos profundamente que continue por um bom tempo ainda. Comentários específicos sobre o CD lançado ficarão para outro texto.

Escrita em: 04/04/2016
© 2016 Tiago De Lima Castro

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