Cenário Idílico II

Cenário Idílico II

Eros e Psique

Ó Psique, permita-me vislumbrar o efeito de Éros

Ó Musas, permitam-me compor este quadro íntimo

Em palavras, e que não falte comigo mesmo nessa

Tentativa de trazer Éros, preso na terra de Morfeus

 

Caminho apressadamente, somente para chegar logo

O anseio da presença, da completude assume deveras

Quanto mais aproximo-me, maior o ardor da presença

Finalmente a vejo, tal sublime visão infunde ebriedade

Veja-a sorrir e o êxtase domina-me, Éros esperneia-se

A carência por sua presença, o apetite pela completude

Leva-me a transbordar intensamente num olhar risonho

Em retribuição, então encaminho-me ao seu encontro

Minha alma e meu corpo são somente um nesse instante

Seu olhar, mostram-me o mesmo estado febril e pungente

Abraço-a em intenso misto de carinho e libertinagem

Sinto sua respiração, tanto do corpo quanto de sua alma

O conjunto de emanações físicas e vibratórias são unas

Sinto sua pele com uma das mãos enquanto alinham-se

Os rostos, enquanto nosso olfato sente a união de odores

Finalmente nossos lábios encostam-se delicadamente

Enquanto nossas línguas sentem uma outra euforicamente

Há troca de saliva, de amor, de sentimentos, anseios, tudo

Sem dizer palavra alguma, sentimos um ao outro plenamente

Transcendemos dualidades de corpo, espírito, identidades, nós

Ao mesmo tempo que nossa individualidade se preenche

Somos dois completos enquanto sentimo-nos como um

 

Ai de mim, saio novamente da porta aberta por Morfeus

Éros vive preso, Psique o busca, mas em mim não se unem

Não compreendo o beijo, essa troca de líquidos corpóreos

Por que o amor se manifesta no toque e no beijo? Como?

As ações, os sentimentos, aquilo que efetivamente se faz

Não é o suficiente? É necessária essa tentativa de fusão?

É como se a boca se adentra o que nos nutri, e no beijo

O amor que nutre o casal se compartilhar e se fortalece

Mas porque o beijo? Se é algo metafórico e ritualístico,

Por que as pessoas sentem falta a ponto de sentir o beijo

Mesmo que não exista amor, somente desejo pelo outro?

Como algo que existe em meio a bactérias, saliva, dentes

Gengiva, por que tal contato se torna tão necessário assim?

Ai de mim, não consigo compreender o anseio pelo beijo

Na adolescência sentia-me enojado ao ver o beijo dos casais

Pensava em quão asqueroso e gosmento deveria ser a troca

De saliva e o porquê de tudo isso? Ainda mais quando não

Almejava o beijo, sendo visto como uma coisa, uma espécie

De homúnculo ou alienígena a não compreender nada, porém

Fingindo interessante para manter o mínimo de convivência

Como posso amar alguém se o beijo é algo que parece terrível

E completamente invasivo? Por que nascer sexuado e temer

Tanto esse contato físico estranho e ainda mais: Por que ele

Existe em meus sonhos? Por que crias tais imagens a me torturar?

Se a cada sonho sou tomado pelo medo e pelo nojo ao acordar?

 

Ó Musas, por Apolo e Dionísio, me respondam então:

Por que tais delírios existem em mim? Por que Éros

Somente manifesta-se em mim somente nas terras

De Morfeus? Por que Psique e Éros existem em luta

E em conflito interno, somente nos sonhos coexistindo

Mas apavorando-me quando retorno a vigília corrente

Talvez eu saiba a resposta e não queria assumi-la e

Por isso Éros persegue-me durante o sonhar, após

Hipnos dobrar-me a tal ponto que Éros se fortalece

Tal vez meu narcisismo seja tamanho, meu ego tão

Inflado que a ideia de ser sentido me transtorna

Posso pensar em traumas, desculpar-me em sublimação

Mas as Musas mostram o medo interno é o medo

De ser visto, de compartilhar emoções, sentimentos

Tanto pelo corpo como pelo espírito em plenitude

A minha do beijo é a fuga do outro, de permanecer

Em estado monástico, como o eremita que sempre fui

Ai de mim, eternamente solitário, eternamente só

Por vontade própria e excelsa a ponto de criar um

Nojo daquilo que é natural, mas não sinto que assim

O seja, por que para todos é fácil aceitar a existência

Do Beijo enquanto a mim, parece uma tortura medieval

Por que ser sexual, por que os anseios de Éros em mim

Quando queria somente amar através de ações pelo

Próximo, a manter sentimentos e promessas, mas eis

Que o Beijo, o toque, o sexo necessitam estar presentes

Ai de mim, preferia não ter corpo para não sentir anseios

Os quais somente me trazem um profundo medo

Ai de mim, Éros me persegue na vigília e no sonhar

Se ser homem implica praticar o beijo, então concluo

Não ser homem, não ser humano, ser um nada

 

Escrita em: 27/12/2015

© 2015 Tiago De Lima Castro

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