Reencontro

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Reencontro

Há anos que não via, afinal, busquei trancá-lo em minha memória
Após dois sábados com coração me assustando, e indo ao hospital
Resolvestes mostrar-se a minha face, afinal, eu te tranquei antes
Bastou ver pessoas estimadas preocupadas comigo pela situação
Viestes ao meu encontro, numa inversão de 13 em 31, lembrar-me

Me impus muitas culpas, seja na infância ou na adolescência, a ti
Sentia culpado pela separação de meus pais, por toda a angústia
Afinal, se não tivesse nascido, talvez sofrimentos seriam evitados
Jurei amar e proteger meu irmão, mas falhei incontáveis vezes, já
Que minha fragilidade física, levou a sentir-se esquecido em casa
Sem mim, ele sentir-se-ia mais amado e acolhido, tirei isso dele
Sempre cultivei o intelecto, única coisa que sentia que podia fazer
E uma pressão caiu sobre ele devido a isso, por minha culpa, ele
Sentiu-se pressionado por muito tempo a ter eu como modelo
Eu? Alguém incapaz de sair de si, que não entende o próprio corpo
Alguém que sempre estranhou a encarnação e esse mundo
As três pessoas que mais amo, passaram por tristezas graças a mim

Foi então que ocorreu, ó fatídico dia, em que o coração se exasperou
Alguns segundos desacordado, uma dor no peito terrível e escuridão
Conheci minha mortalidade, meus limites eram claros, viveria com
Medicação numa tentativa de sobreviver, ó caro betabloqueador
Passei a viver pensando nos meus limites, no que não poderia fazer
Prometi a mim mesmo que jamais faria alguém sofrer novamente
Graças a minha fragilidade, afinal, era tudo tão fácil e simples
Bastaria aprofundar minha solidão, assim, jamais teria um amigo
Ou amiga que sofresse por me ver doente… Jamais teria um filho
Ou uma filha, para passar minha genética e suportar um pai frágil
Jamais teria uma esposa, afinal, não se cansa escolhendo pelo
Outro nunca não ter filhos, não se decide isso sozinho jamais
Para isso havia um certo problema: como namorar e jamais casar?
Não é justo fazer com uma mulher, além do que, o sofrimento de
Estar comigo seria imputado a ela também, então tomei a decisão:
Viverei como um monge: cultivarei o intelecto, viverei para ajudar
Os demais esquecendo de mim mesmo, acharei uma profissão que
Me dê alguma alegria em vida, com ele me sustento e me alegro
Não foi difícil… Tinha já dificuldades com toques e abraços, misto
De medo e repulsa em alguns momentos, o beijo, mesmo desejado
Tinha uma aparência de asco fácil a ser ignorado e temido, e as
Demais coisas devo confessar, a gala é nojento e asquerosa
Como seu produtor, não é algo bom de se ter contato manual…

Chegou um dia em que não precisei mais tomar betabloqueador
Ó alegria inefável, uma possibilidade de vida sem remédios, ou
Uma possibilidade de vida. Ó alegria infinita que não conhecias
Como deixar todo o passado de lado? Deixar para trás os medos
As angústias e tentar viver efetivamente? Como poderia tal coisa?
Daí concentrei em ti, garoto de 13 anos, todos esses traumas e
Essas decisões espúrias que fiz. Tranquei-te em mim mesmo
Para nunca mais olhar a ti… Ó terrível desgraça, o que fiz a ti…

Mudei de escola, com o tempo, para criar um novo si mesmo
Finalmente entreguei-me a música, como quis mas não fiz
Fiz outros amigos sem o peso de ter sido o garoto de 13 anos
Andando sozinho pelo pátio, tendo medo de cumprimentar,
De falar, a não ser com alguns poucos que romperam a barreira
E como eu, e o garoto de 13 anos, somos gratos a vocês por isso
Depois veio a filosofia, tornando-me amante da mousiké e da sophia
A estas permiti Éros manifestar-se em mim, e não de outra forma

Mas negar-te não fez eu ser um outro si mesmo, apenas cumpri
Antigas promessas, disfarçado de um novo si mesmo, mas fiz
Tenho criado novas amizades continuamente, mas sempre faço
O que prometi, deixando-as ou influindo-as a se afastar de mim
Cristalizei uma contínua negação de eu enquanto ser sexuado
Criei um castelo de argumentos, digno dos grandes oradores
Para manter minha condição, fugindo da minha responsabilidade

Mas o coração não aguentou, o excesso de trabalho me perturbou
Alguém apareceu e rompeu uma barreira, despertou-me o amor
Éros finalmente conseguiu fazer buscar alguém, e este alguém
Com simples palavras numa longa ligação telefônica, trouxa a ti
Novamente, garoto de 13 anos, sem abraçar a ti, para juntos
Novamente formamos um si mesmo superando toda a culpa
Passada, todas as construções e autoflagelações impostas a nós
Por nós mesmos, não posso alcançá-la, nem mesmo buscá-la
O mais provável é tudo isso ser irreal, ela me vê como amigo,
Afinal, eu a fiz me ver dessa forma, eu afastei qualquer outra
Possibilidade a não ser essa, e fiz bem a ela dessa maneira
Vê-la segura consigo mesma, preenche minha alma e coração
Ainda sinto que a prejudicaria com minha presença além do
Amigo que faz o que pode para deixá-la feliz, minhas limitações
São grandes, e a faria sofrer nesse processo, de tanto escondido
Não sei mesmo o que fazer com esse sentimento, que tira minha
Paz e ao mesmo tempo me preenche quando ouça a voz dela…

Enfim, reencontro contido, melhor dizendo, reencontro comigo
Precisamos deixar de nos ignorar e passar a transcender tudo
Que fomos, todas estas promessas, toda essa culpa ainda tão
Presente, pois ver irmão, mãe e pai preocupados comigo trouxe
Tudo novamente, os mesmos sentimentos, as dúvidas e mais
Trouxe a ti… Nunca mais quero te abandonar, nunca mais irei
Negar a nós mesmos desta maneira… Deixemos essa dualidade
Afinal, eu sou o garoto de 13 anos assustado com o mundo
E sou o homem de 31 anos, com dúvidas e anseios de vida
Abraço a ti, abraço a mim, sejamos generosos conosco uma vez

Escrita em: 21/07/2015

© 2015 Tiago De Lima Castro

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