Nerdices Filosóficas – Dr. Who: Ciência e Progresso

Nerdices Filosóficas

Autor: Tiago de Lima Castro
Vitrine: Valério Gamer

coluna39Confesso, de antemão, que escrevi essa coluna após assistir o pré-episódio do especial The Day of the Doctor, da série Dr. Who, que já abordamos em outras textos. Porém, não vou falar especificamente sobre o episódio, mas a Ciência ronda cada episódio da série, afinal, vemos mundos tecnologicamente mais avançados, inclusive a Terra no futuro. Entretanto, progresso tecnológico implica em progresso na convivência das pessoas, ou seja, em ética?

No século XIX, a ciência positiva torna-se o principal meio de conhecimento. Neste contexto, o termo ciência tem o sentido de conhecimento através de um método, que a observação de dados concretos, daí positivos. Simultaneamente ao desenvolvimento científico da época, há filósofos positivistas, os quais ao mesmo tempo articulam o método científico e sua aplicação a diversos campos do conhecimento, como Saint-Simon (1760-1825), Auguste Comte (1798-1857), Herbert Spencer (1820 – 1903), entre outros.

Nesse contexto, o conceito de progresso, ou mesmo evolução, está fortemente ligado à ciência, tanto no sentido de que a ciência sempre progride em linha reta, tornando-se mais ampla e crescendo sua capacidade de mostrar e demonstrar as leis gerais da natureza; como no sentido de que a ciência traz progresso à humanidade como um todo, por levar a humanidade a progredir através de si. Esse é o momento em que surgem as diversas disciplinas científicas, o conhecimento vai tornando-se cada vez mais especializado, surgem às ciências humanas como sociologia e psicologia, entre outras.

O positivismo influenciou muito a cultura popular em geral, a ponto de tornarem-se parte do senso comum ao longo do século XIX e XX. O próprio lema de nossa bandeira, “Ordem e Progresso”, é extremamente positivista.

A série Dr. Who é uma série de ficção científica, onde a ciência é utilizada como meio da narrativa caminhar. Porém, ela apresenta uma crítica a essa relação entre progresso científico e progresso ético das pessoas. Os grandes inimigos do Doutor são inteligentíssimos, cheios de tecnologia, como Cybermans e Daleks. Entretanto, a série nos mostra que progresso científico não implica em progresso ético, principalmente quando vemos os próprios Senhores do Tempo (Time Lords), serem considerados decadentes pelo Doutor.

O tempo todo, a série nos leva a refletir da necessidade da ética estar conjugada a prática científica. Os cientistas, na série, podem fazer grandes coisas como coisas terríveis, havendo uma necessidade de conjugar sua prática a uma vivência ética dos cientistas. A grande diferença do Doutor com seus inimigos mais avançados é exatamente sua ética.

A filosofia do século XX, principalmente na área de epistemologia (filosofia da ciência), fez uma série de críticas ao positivismo clássico, como a própria história tratou de demonstrar.

Isso não significa que a ciência seja ruim, pois ela é somente um rótulo para uma série de produções de pessoas concretas as quais necessitam da ética para não praticar o mal buscando o progresso da humanidade. Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, vimos ideias como raça pura, eugenia, entre outras, terem “respaldo científico”, não sendo coincidência que a voz dos Daleks lembre a maneira como Hitler discursava. A ética é um auxiliar a prática científica ao barrar certos caminhos que prejudicariam pessoas concretas, para buscar novos caminhos a pesquisa.

Não se deve ignorar a ciência, mas sim aliá-la com a ética, que é o constante desafio ainda em nossos tempos, sendo este também o grande desafio existencial do Doutor. Afinal, nem sempre é fácil para ele lidar com certas questões. Sua imperfeição e dúvida permite-nos pensar nossa própria relação com a ciência e a ética.

Nesse aspecto, assistir Doctor Who é uma grande possibilidade de pensarmos a necessidade de conjugação entre ética e ciência. Afinal, gostamos do Doutor somente por sua genialidade ou como ele a alia com uma busca por uma vivência ética?

PS: Se ficou curioso, veja o episódio abaixo:

Publicado originalmente em: http://randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-dr-who-ciencia-e-progresso/#titulo

© 2013 Tiago de Lima Castro

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2 comentários sobre “Nerdices Filosóficas – Dr. Who: Ciência e Progresso

  1. Olá!

    Indo por esta linha de pensamento:
    ao que parece, o Doctor necessita do contato constante com outros seres, os seus companheiros.
    Quando fica muito tempo solitário, há uma tendência a tornar-se mais frio e, em alguns casos, inescrupuloso.
    Seriam seus companheiros uma metáfora para a necessidade dos cientistas estarem sempre em contato com a realidade que os cerca?

    abraço

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    • Oi Nilda,

      Muito obrigado pelo comentário e concordo com você.
      O cientista ele é uma pessoa como todas, tem suas carências, necessidades, desejos, sonhos… Ele pode começar a trilhar pela crueldade em nome ciência, o que feito na época do nazismo e do fascismo. Esse contato com a realidade, com outras pessoas é importante para haver ética na ciência. E o próprio Doctor mostra isso, sem eles vai ficando estranho, prepotente, frio, mesmo quando quer fazer o melhor para todos. É a presença da humanidade dos companheiros que não o deixem cair nesses excessos.

      Tudo de bom e obrigado pela discussão!

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