Nerdices Filosóficas – Filmes e literatura de fantasia, quadrinhos: Por que são tão lidos?

Nerdices Filosóficas

Autor: Tiago de Lima Castro
Revisão: Paulo V. Milreu
Vitrine: Valério Gamer

Atualmente, obras de fantasia no cinema, literatura e quadrinhos, animes, mangás, games, além dos produtos derivados, são verdadeiros fenômenos de mercado. Há casos em que a fantasia se passa em nosso mundo e outros em mundos advindos do imaginário sobre a Idade Média. Esse fenômeno crescente tende a ser encarado pelo ponto de vista de algo meramente comercial. No entanto, se há consumo deste tipo de histórias é porque elas realizam algo em seus leitores, mas o quê?

Por mais que este tipo de produção perpassa todo o século XX, como podemos ver com J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, Anne Rice, Neil Gaiman, Alan Moore, entre muitos outros; e principalmente, após a trilogia cinematográfica do Senhor dos Anéis e o fenômeno literário e cinematográfico Harry Potter, de J. K. Rowling, este mercado só tem crescido. Porém, se o mercado fora despertado e têm crescido é devido a estas obras responderem a anseios e desejos de seus leitores. Se não houvesse um anseio anterior ao qual estas obras respondem, não veríamos tantas produções em fantasia. O mundo de animes e mangás são também fenômenos mundiais já há algum tempo, como se vê na proliferação mundial de eventos com cosplays.

Em toda obra de entretenimento é comum a ocorrência da catarse, ou seja, um estado em que a pessoa que aprecia a obra tem anseios e desejos internos realizados na obra de entretenimento. Isto tem sido analisado por Theodor Adorno (1903-1969) e outros membros da Escola de Frankfurt. Nestas análises, trabalha-se com hipótese de que aquilo que a pessoa não consegue realizar na vida, ela realiza no entretenimento a partir da catarse, já que a obra mimetiza, imita aqueles anseios e desejos não realizados na própria vida. Peter Sloterdijk, também realiza esse tipo de análise em relação à ira e a obra de Alexandre Dumas no século XIX.

Por muito tempo, têm-se classificado estas obras como mero entretenimento popular, como pseudo-arte, como kitsch, algo que J. R. R. Tolkien escutou bastante, entre outras denominações. Esquecemos que os grandes clássicos também foram obras populares em sua época. Mas, independente do valor estético destas obras, o fato delas serem tão procuradas pode ser uma via de percepção dos anseios contemporâneos que se escondem no ato de apreciá-las. Apostaria que uma das formas de compreender os anseios contemporâneos seja mergulhar nestas obras para compreender o porquê de serem tão apreciadas. Talvez futuramente, arrisco-me a dizer, nossa época será analisada exatamente por meio destas obras…

Em todas elas se vê o encantamento, o desconhecido, a magia… Em um mundo essencialmente sem sentido como o de hoje, já que não se tem mais verdades universais que forneçam o sentido de tudo, cabendo a cada pessoa encontrar esse sentido individualmente; é sintomático essa busca por mundos mágicos em que esse sentido ainda subsiste de alguma maneira. Tanto se defendeu um mundo desencantado, como diria Max Weber (1964-1920), que quando ele efetivamente se realizou passou-se a buscar no entretenimento novamente a magia e elementos metafísicos que dariam sentido a tudo.

Em obras como Game of Thrones (Guerra dos Tronos), de George R. R. Martin, em que sua política relaciona-se diretamente com a política em nosso mundo, cada membro de uma casa tem seus ideais, tem crenças sob as quais erigem sua existência. Mesmo ali, em seu realismo político, vemos ideias guiando estas ações políticas. De maneira que a obra mostra uma política como a nossa, onde as pessoas que agem tem um sentido existencial que justifica suas ações. O sucesso dos livros e série não é uma amostra de nossa falta do encantamento, de sentido do mundo, a ponto de acompanhar o sentido existencial dos personagens, talvez, proverem a falta de sentido existencial de seus admiradores?

Além disso, todas estas obras criam novos mundos, sejam próximos ao nosso contemporâneo ou próximo a imaginários medievais. Enquanto que o século XX buscou realizar utopias, sejam comunistas ou liberais, os anseios do século XXI têm-se realizado na criação destes novos mundos. Há descrença na possibilidade de transformação do mundo que habitamos unidos a percepção de que ele possa estar completamente errado, o que leva a essa busca por novos mundos no cinema, literatura, quadrinhos e games.

Tais mundos apresentam ideais como: heroísmo, honra, amizade, obstinação, entre outros. Num mundo sem valores colocados de antemão, é curioso essa busca ocorrer através destas obras. Mesmo os mundos fantásticos contemporâneos têm elementos do imaginário medieval. Não é minimamente curioso buscar estes valores na literatura e não em figuras históricas como ocorreu num passado recente com Che Guevara, entre outros? Enquanto em nosso mundo a aparência física têm-se tornado o principal meio de reconhecimento pelo outro, a busca de personagens que são reconhecidos pelos seus atos fala muito sobre como se vivencia a contemporaneidade.

Ver os anseios respondidos por estas obras pode ser um grande meio de compreensão dos anseios de nosso tempo. Há necessidade de olhar mais profundo a estas obras, pois este fenômeno de mercado somente existe por realizar algo em seus apreciadores que a vida não tem realizado. Estes realizadores têm canalizado estes anseios que parecem vir de todos os cantos do planeta, a questão é: O que, efetivamente, eles têm canalizado e não conseguimos enxergar?

Publicado originalmente em: http://randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-filmes-e-literatura-de-fantasia-quadrinhos-por-que-sao-tao-lidos/

© 2013 Tiago de Lima Castro

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Um comentário sobre “Nerdices Filosóficas – Filmes e literatura de fantasia, quadrinhos: Por que são tão lidos?

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