Nerdices Filosóficas – Capitão Planeta e a Razão Instrumental

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Na década de 90 ocorreram discussões ecológicas como a Eco 92, que ocorreu no Rio de Janeiro. Havia, inclusive, um desenhado animado com essa temática: Capitão Planeta.

Nele havia um grupo, convocado por Gaia, para lutar contra os poluidores que estavam destruindo o planeta utilizando-se de anéis com poderes específicos de algum elemento. O grupo era formado por: o africano Kwame, com poder da terra; o americano Wheeler, com o poder do fogo; a russa Linka, com o poder do vento; a asiática Gee, com o poder da água; e o indígena caiapó Ma-ti, com o poder do coração. Quando a situação complicava, uniam os poderes de seus anéis chamando o Capitão Planeta, um super-herói que reunia em si os cinco poderes.

O desenho estava recheado de metáforas, afinal não fazia tanto tempo que a URSS havia se desmembrado e há um americano e uma russa trabalhando em conjunto. Um dos vilões era o Porco Greedly, literalmente alguém que pode ser chamado de porco capitalista… Mas entre as metáforas, uma pouca compreendia era o poder do coração, motivo de zombaria inclusive entre as crianças que assistiam ao desenho.

No início do século XX, houve um grupo de pensadores, não exatamente homogêneos, que ficaram conhecidos como a Escola de Frankfurt, os quais criticaram sua época através de uma análise do Iluminismo, o qual está na base da genealogia do modo de vida do século XX até nossa época. O grande acontecimento no Iluminismo fora a Revolução Francesa, mas seu fracasso enquanto libertação popular e o fracasso de grande parte de suas propostas iluministas, como se vê nos dias de hoje, levaram estes pensadores a investigar o que deu errado, já que este surgiu com o ideal de libertar o humano de tudo que lhe aprisiona, tornando-o autônomo através das luzes da razão e possibilitando uma felicidade geral. O texto “O que é Iluminismo”, de Immanuel Kant (1724–1804), permite compreender todo o ideal iluminista.

A razão moderna nasce com Francis Bacon (1561–1626), sendo este que articulou o método indutivo, ou seja, partir da observação da natureza para conhecer suas leis e daí podê-la dominá-la para trazer a felicidade ao humano. Sua obra vai influenciar diretamente o Iluminismo e a prática da ciência como conhecemos hoje. Ele foi o primeiro pensador a propor que “saber é poder”.

O método indutivo de Bacon em conjunto com a pesquisa do método de René Descartes (1596-1650) vai articular a separação entre sujeito e objeto, a base do conhecimento na concepção moderna.  Compreendemos o conhecimento como fruto de um sujeito que observa um objeto, uma coisa, sendo que essa relação é a geratriz do conhecimento. Mesmo com as críticas a essa divisão, ainda tendemos a praticar o conhecimento científico dessa maneira. Mas esta relação vai levando o sujeito a ver tudo como objeto, até mesmo as pessoas que ele observa, tornando-as coisas a serem observadas.

Não há espaço para falar sobre cada filósofo da Escola de Frankfurt neste texto, daí será traçado um painel geral das críticas ao Iluminismo, sem aprofundar a especificidade crítica de cada retalho.

Com a análise do dito de Bacon, “saber é poder”, pode-se compreender que a razão tem um aspecto instrumental, ou seja, torna a natureza um instrumento a ser dominado pelo humano, mas também vai tornando o humano um objeto a ser dominado pelo próprio humano. Se para conhecer precisamos objetificar, instrumentalizar, coisificar ou reificar – os termos são sinônimos – todas as coisas, o próprio humano vai sendo reificado em suas relações, aproximando-as da frieza científica ao estudar um objeto. Esta é a crítica realizada, de maneira simplificada, pela Escola de Frankfurt.

No desenho animado os anéis da terra, fogo, vento e água possibilitam aos seus portadores uma dominação e manipulação da Natureza. Porém, os poluidores também tentam dominá-la através do poder e da ciência.  O poder do coração é o que permite que eles não se tornem iguais com quem lutam, pois permite a ruptura da razão instrumental, da dominação através de algo fora da razão que é a sensibilidade. Daí, o personagem que o porta ter importância no desenho. Esta é grande metáfora do desenho, a sensibilização do coração não os permite cair na razão instrumental.

Enrich Fromm (1900-1980) apostou também no amor como meio de sensibilização para evitar os excessos da razão instrumental; outros como Walter Benjamin (1892-1940) e Theodor Adorno (1903-1969), apostaram na arte como ruptura; já Habermas (1929-), aposta numa razão comunicativa, como meio de sair deste ciclo de dominação do humano pelo humano. No geral, vemos uma aposta em algo além da razão para que ela realmente possa emancipar o humano.

Reveja o desenho pensando nestes aspectos, a importância do coração ali. Indiquei alguns livros para se aprofundar no tema, mas tem um artigo do Franklin L. e Silva que ajuda muito na compreensão da Escola de Frankfurt e do que é razão instrumental.

Fontes de Aprofundamento

A Escola de Frankfurt, Olgaria CF Matos
Conhecimento e Razão Instrumental, Franklin Leopoldo e Silva
Discurso do Método, Descartes
Nova Organum, Francis Bacon
O que é Iluminismo, Kant

Publicado originalmente em: http://randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-capitao-planeta-e-a-razao-instrumental/

© 2013 Tiago de Lima Castro

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