Nerdices Filosóficas – Porque gostamos de Super-heróis?

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Este número será um pouco diferente dos anteriores. Normalmente articulamos um personagem, de um filme ou livro, com alguma corrente filosófica, mas o tema de hoje permitirá uma articulação com múltiplas correntes do século XX, por tratar de um problema filosófico ainda presente na contemporaneidade. A questão é: Será que o fato de se valorizar o super-herói ao invés do herói é simplesmente uma preferência de entretenimento, ou é algo que se mostra tão claro a nossa frente, mas que talvez não queiramos ver?

O século XIX teve uma propulsão de otimismo sobre o homem e a racionalidade, como Hegel, Comte, Spencer, entre muitos outros. Mesmo já havendo críticos sobre esse excesso de otimismo, como Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, entre outros; em geral o otimismo pela ciência e pelo próprio homem imperou nesse século. Era comum pensar-se que estaríamos próximos à grande finalidade do ser humano, que o conhecimento científico desencantaria o homem de seu passado mágico, possibilitando o controle da natureza que propiciaria o bem-estar da humanidade e tantos outros sonhos de plena realização. Considerava-se que a própria racionalidade aplicada à ética, à política, à economia, à psicologia, entre outros, levariam o homem a essa plena realização. Essa ideia do homem estar próximo a realizar sua finalidade foi a tônica do final desse século, sendo essa finalidade teorizada por diversos teóricos, nas mais diversas áreas do conhecimento.

Eis que surge o século XX, com todas as ocorrências que levaram a um grande acontecimento: Primeira Guerra Mundial, que mostrara a falência de todo projeto de homem desenvolvido ao longo de toda a Modernidade. Diversas correntes filosóficas, e mesmo outras áreas do conhecimento, tem identificado que os motivos que levaram a essa falência, representada, principalmente, pelas duas guerras mundiais, tiveram origem em tudo aquilo que no século XIX era motivo de euforia e otimismo.

Talvez esteja pensando como isso pode relacionar-se aos super-heróis. Mas pensemos com calma: O que eles são? São seres em que a força, agilidade, capacidade mental, entre outros, superam as capacidades do homem, tendo o Super-Homem como grande modelo do super-herói. O herói, como abordado em “O que é o Herói”  e “Quem quer ser Herói” era nada mais que o próprio homem plenamente realizado em suas potencialidades. Não devemos ver o personagem Super-Homem como a manifestação do conceito de além-homem (Übermensch) de Nietzsche, mas somente como uma metáfora do descrédito do humano pelo próprio humano.

O grande sucesso dos super-heróis mostra essa falta de crença no ser humano, sendo esse sentimento de sua falência tão intenso, que passamos a gostar de super-heróis ao ler ficção nos quadrinhos, pois transcendem a condição humana, afinal, por não acreditar na possibilidade de um homem com suas potencialidades realizadas ser um símbolo de esperança ou mesmo nos ajudar nas coisas mais simples, somente algo que transcende o homem pode nos ajudar, ou mesmo nos salvar da falência humana.

Há poucos heróis que não se utilizam de poderes, mas sim de tecnologias ou magias que possibilitem a sua transcendência da condição humana. Quer dizer: mesmo quando o super-herói é simplesmente um humano, tem que haver algo, a tecnologia ou a magia, para fazê-lo ser algo além do próprio humano.

Uma das poucas exceções é o Batman que inicialmente tinha foco em suas habilidades, sua força de ação, não tanto em seus equipamentos, pois a influência dos equipamentos nas ações do personagem foi desenvolvida ao longo do tempo para aproximá-lo dos demais super-heróis.

Isso se modificou com o passar do tempo, quando se buscou aproximar os super-heróis das pessoas comuns, havendo um verdadeiro processo de desconstrução e reconstrução nos anos 80, que talvez demonstrem uma falta de crença também nos super-heróis, o que não implica necessariamente em um retorno da confiança no ser humano.

Não podemos dizer que é algo negativo gostar de super-heróis, mas que necessitamos pensar o quanto essa descrença no humano não é uma descrença em relação a nós mesmos enquanto pessoas. A percepção dessa falência pode ser mesmo uma crise criadora, no sentido em que a falência do projeto do humano moderno, exige a criação de um novo modo de ser humano, que foi a busca do século XX, e ainda a de nosso século.

Publicado originalmente em: http://randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-porque-gostamos-de-super-herois/

© 2013 Tiago de Lima Castro

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