Nerdices Filosóficas – Jornada nas Estrelas: Dr. McCoy e a racionalidade moderna

Nerdices Filosóficas

Autor: Tiago de Lima Castro
Revisão: Juan Villegas
Vitrine: Valério Gamer

Vamos retomar a discussão sobre Jornada nas Estrelas (Star Trek), mas hoje discutindo sobre outro personagem, o dr. Leonard McCoy, focando em suas discussões com Spock.

O fato do dr. McCoy ser um médico, naturalmente o leva a refletir as coisas de um ponto de vista diferente de Spock, que pensa através da lógica. O foco desse texto não são as divergências éticas, mas no modo de raciocinar.

coluna18Na Renascença, dentro de um contexto de crescente ceticismo a exemplo de Montaigne (1533-1592), começou-se a desenvolver o raciocínio indutivo com Francis Bacon (1561-1626). Enquanto o raciocínio silogístico, da lógica, partia do universal, do conceito, para compreender os casos particulares;          o raciocínio indutivo parte de elementos particulares, normalmente observáveis, para chegar a uma conclusão universal. De tal semente, germinará a ciência como conhecemos hoje.

Nesse contexto, René Descartes (1596-1650) buscou reunir o conhecimento, como na metáfora da árvore, para, dessa maneira, unir novamente os diversos campos do saber em um todo coerente, com a metafísica enquanto raiz. Para isso, ele utiliza do ceticismo metodológico, ou seja, duvidando de tudo até achar uma certeza indubitável para fundamentar todo o conhecimento. Ele percebe que colocando tudo em dúvida neste processo de pensamento, verifica que enquanto ele pensa, não pode duvidar de sua existência, sendo esta a famosa frase “penso, logo existo”, ou seja, enquanto penso e coloco tudo em dúvida, até mesmo o meu corpo, não consigo duvidar que eu exista, e esta certeza, sendo indubitável, torna-se a base do conhecimento metafísico e de todo o conhecimento, por consequência. Percebamos que Descartes ao chegar a esta certeza, que é uma certeza vivenciada em seu ceticismo metodológico, coloca a subjetividade, a experiência do eu pensante, como fundamento de todo o conhecimento, ou seja, a própria razão deriva-se de uma experiência.

Todas estas discussões foram embasadas pelas pesquisas e descobertas de Galileu Galilei (1564-1642) e, posteriormente, com as contribuições de Isaac Newton (1643-1727) e outros pesquisadores.

Com isso, a razão e a argumentação da modernidade sempre vão necessitando de bases empíricas, experienciados ou percebidos pelos sentidos. No século XIX, teremos o surgimento da ciência positiva, que caracteriza boa parte de nossas práticas científicas, ou, no mínimo, a maneira como compreendemos a ciência do ponto de vista do senso comum, já que a epistemologia, área filosófica que estuda o que é ciência e o método científico, já tem outras propostas.

O dr. McCoy, como médico, é um cientista, então todo o seu modo de reflexão é moderno, necessitando de dados empíricos para ser realizado, daí as discussões entre ele e o Spock, de certa maneira, representam a discussão entre a lógica e a racionalidade moderna e científica. É bem interessante que o médico foi o grande estereótipo de cientista, mesmo nos dias de hoje. Daí as discussões entre estes personagens serem tão interessantes, pois são diálogos entre a lógica e a racionalidade moderna.

Tendemos a ver o conhecimento científico, derivado da racionalidade moderna, como a única maneira de conhecimento válida, e talvez seja a única maneira válida para alguns tipos de conhecimento. Não é questão de ignorar a ciência, mas compreender que a metodologia científica tem aplicação em algumas áreas do conhecimento, enquanto outros tipos de saberes exigem outras metodologias. As próprias ciências humanas se utilizam de metodologias diferenciadas.

No filme de 2009, dirigido por J. J. Abrams, vê-se um McCoy um pouco mais sério, sendo que logo no início, no surgimento da nave romulana, Spock propõe a possibilidade da viagem no tempo como explicação daquele fenômeno, pois como pensa através da lógica, o fato de não ter observado algo do gênero, não o limita a trazer hipóteses calcadas na experiência. McCoy já fica cético sobre essa hipótese, pois como está acostumado a raciocinar partindo de premissas particulares observáveis e não ter observado viagens no tempo anteriormente, ou algo que o encaminharia a esta hipótese, impede-o de levá-la em conta. O excesso de lógica de Spock também o leva a problemas, onde McCoy se sai melhor, como vemos nos episódios clássicos da série. Daí a questão não seja escolher qual maneira de racionar é melhor, mas em que tipos de problemas ela se aplica.

Fontes para aprofundamento

Coletânea dos Pensadores, Francis Bacon
Ensaios, Michel de Montaigne
Discurso do Método e Meditações Metafísicas, René Descartes
Jornada nas Estrelas: Spock e a lógica, Tiago de Lima Castro

Continua em: http://randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-jornada-nas-estrelas-dr-mccoy-e-a-racionalidade-moderna/

© 2013 Tiago de Lima Castro

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